A pergunta surge cedo em quem estuda o mapa de nascimento: se tudo está no mapa, o que sobra para a escolha? É a pergunta central do Jyotish, e a resposta que a tradição dá merece ser lida com vagar. Este artigo é a base ética do site.
O que quer dizer karma
Karma significa “ação”, da raiz kṛ, “fazer”. A palavra não diz destino nem punição. Diz que cada ação tem consequências, e que essas consequências acabam por regressar a quem agiu, de uma forma ou de outra.
Daqui nasce uma ideia de responsabilidade larga e, ao mesmo tempo, de grande liberdade: o que foi feito explica o ponto de partida, e o que se faz agora decide o caminho.
Três tempos do karma
A tradição distingue três camadas. A imagem mais usada é a de um arqueiro.
- Sañcita, o karma acumulado, são todas as flechas guardadas na aljava.
- Prārabdha, o karma posto em marcha, é a flecha que já saiu do arco e vai a meio do voo. Define as condições com que esta vida começou.
- Kriyamāṇa, o karma que se faz agora, é a flecha que o arqueiro tem na mão neste momento.
Alguns textos chamam também āgāmi, “o que está para vir”, ao karma que as ações presentes preparam. Conforme a fonte, os dois termos coincidem ou distinguem-se por uma nuance.
O mapa de nascimento fala sobretudo do prārabdha. Mostra a flecha que já voava no instante em que se nasceu: o corpo, a família, o lugar, o temperamento, as aptidões, os temas que a vida vai trazer. Não mostra a flecha que ainda está na mão. Essa não está escrita em lado nenhum.
Karma firme e karma moldável
Os manuais de Jyotish distinguem ainda três graus de firmeza, e é aqui que o livre-arbítrio ganha espaço. Os critérios variam conforme a fonte. A ideia é sempre a mesma.
- Dṛḍha, “firme”, é o karma que não se altera, qualquer que seja o esforço. Nascer num corpo, numa família, numa língua e numa época é dṛḍha.
- Adṛḍha, “não firme”, é o karma que cede ao esforço. O hábito de adiar tarefas, por exemplo, pode ser treinado até desaparecer.
- Dṛḍhādṛḍha, “firme e não firme”, fica entre os dois. O temperamento acompanha a vida inteira, mas a maneira de o exprimir educa-se. Marte dá intensidade a quem o tem forte no mapa. O que essa intensidade faz no mundo depende do treino.
Quase tudo o que preocupa no dia a dia cai na terceira categoria. Aparece como tendência e pede trabalho. Raramente aparece como sentença.
O vento e o leme
Quem navega não escolhe o vento. Escolhe o rumo, com o leme e a vela. Um mapa de nascimento descreve ventos: estações longas, ritmos, inclinações. Dizer que o rumo é do timoneiro não nega o vento, e dizer que o vento sopra forte não tira o leme da mão.
Há dois enganos simétricos. O primeiro é o fatalismo: “está escrito, não há nada a fazer”. O segundo é a soberba: “posso tudo, o mapa não conta”. O Jyotish serve melhor a quem presta atenção ao vento e mantém a mão no leme.
O direito à ação
A Bhagavad Gītā resume esta posição num verso. Kṛṣṇa diz a Arjuna, no campo de batalha:
karmaṇy evādhikāras te mā phaleṣu kadācana
“O teu direito é à ação, nunca aos seus frutos.”
Bhagavad Gītā 2.47
O verso costuma ser lido como um pedido de indiferença. Lê-se melhor como uma indicação de onde pôr a atenção. O resultado de uma ação depende de muitas causas, e a maior parte delas está fora do nosso alcance. A qualidade da ação depende de quem age.
Pôr a atenção na ação é pôr a atenção na única parte do karma que ainda está por fazer.
Daqui decorre uma consequência para quem lê um mapa. Um bom roteiro não promete resultados. Propõe ações para o tempo em que se vive: o que cultivar, o que largar, que prática repetir. É assim que o Roteiro da Luz escreve.
Dez minutos para separar o dado do que é seu
Uma forma simples de aplicar isto a um mapa, ou a uma semana pesada, é separar o que vem dado do que está por fazer.
- Pegue numa folha e trace uma linha ao meio. À esquerda escreva “Dado”, à direita “Meu”.
- Em “Dado” ponha o que não pode mudar nesta fase: a idade, as obrigações, o lugar onde vive, a estação do mapa em que se encontra.
- Em “Meu” ponha o que pode fazer esta semana, com verbos concretos: ligar, escrever, descansar, recusar, começar, pedir ajuda.
- Risque, em “Meu”, tudo o que dependa da reação de outra pessoa. O que sobra é a sua parte.
Repita ao domingo, durante um mês. A lista de “Meu” costuma ficar mais curta e mais fácil de cumprir.
Uma ressalva
O karma não serve para explicar o sofrimento de ninguém, nem para o justificar. A quem atravessa uma doença, uma situação de violência ou um momento de grande angústia, a primeira resposta é ajuda concreta: médica, psicológica ou jurídica. O Jyotish não substitui nenhuma delas.
Para o resto, para as tendências, os hábitos e as estações longas, o mapa oferece uma linguagem. Ajuda a perguntar melhor.
Para ver como esta ideia se aplica ao tempo, leia As dashas. Para a aplicar ao dia, passe por Hoje.
Para levar consigo
- O mapa descreve o prārabdha, as condições com que esta vida começou. O que se faz agora, o kriyamāṇa, ainda não está escrito.
- Quase todo o karma do dia a dia é moldável com treino. Perante cada tendência, pergunte: o que posso treinar?
- Ponha a atenção na ação e solte o resultado. Em dez minutos, separe o que vem dado do que é seu.